Elas quase sempre vivem longe das sedes dos municípios, em comunidades de nomes pitorescos, como Raposa, Pixirica, Chapada. Ainda assim, até chegar ao prato do consumidor, os alimentos cultivados por 305 famílias do Núcleo Litoral Solidário da Rede Ecovida de Agroecologia percorrem distâncias bem menores do que outros produtos do mercado convencional. Organizadas em 41 grupos, com diferentes formas de comercialização, o trabalho dessas famílias desafia velhos preconceitos sobre a produção de alimentos e o problema da fome.

Foto: Centro Ecológico

“Se nós não podemos afirmar que a agricultura ecológica é a solução para a fome, podemos dizer que é parte da solução, à medida em que ela busca uma produção baseada nos recursos naturais, que são gratuitos”, observa Laércio Meirelles, do Centro Ecológico.

Ao uso eficiente da natureza, Elias Strege Evaldt, da Associação dos Produtores Ecologistas de Morrinhos do Sul (Apemsul) acrescenta a capacidade de produzir em áreas menores: “Praticamos o plantio consorciado, isso gera mais alimentos em pequenos espaços”, defende o agricultor.

Para João Luiz Fernandes, da Associação dos Colonos Ecologistas da Região de Torres (Acert), núcleo Raposa, a população mundial poderia ter acesso a alimentos sem agrotóxicos. ”É realmente possível alimentar a todos através da agroecologia, até porque, se formos pesquisar mais a fundo, veremos que hoje, no Brasil, cerca de 70% dos alimentos que vão para o prato do povo provêm da agricultura familiar, e não do agronegócio”.

No mundo, de acordo com dados de 2014 da organização Grain, mais de 90% das pessoas que produzem comida são camponeses – como Elias e João Luiz – e indígenas, que trabalham em menos de um quarto das terras agrícolas do planeta.

Por isso, a jovem agricultora Jovana Moschen, do grupo Ecotorres do José, pensa que políticas de combate à fome precisam considerar “terras para todos os agricultores produzirem e incentivos de políticas públicas, trazendo mais informações e tecnologias para produzir alimentos limpos para todos”.

Jovens têm papel fundamental na agroecologia

Se hoje na região de Torres e em boa parte do Rio Grande do Sul é possível encontrar alimentos agroecológicos a preços acessíveis, foi porque, no final dos anos 1990, alguns jovens, com o apoio das mulheres, especialmente do Movimento de Mulheres Camponesas, se recusaram a usar veneno na produção. “A juventude tem a cabeça mais formada para estas culturas orgânicas. Pessoas mais de idade, acham que têm que ser com veneno”, analisa Eduardo Pontel, do Núcleo Serra da Rede Ecovida.

Hoje, jovens que estão assumindo a sucessão familiar, como o coordenador da Comissão de Ética do Núcleo Litoral Solidário, Natan Fernandes, pensam no papel da juventude como de continuidade e ampliação. “O papel dos jovens agroecologistas é produzir alimento de qualidade cada vez mais para que boa parte da população, independente da sua classe social, possa ingerir alimento de qualidade”. O primo João Luiz Fernandes vê que ainda é necessário provar “que produzir ecologicamente não é nenhum bicho de sete cabeças. A agricultura ecológica é algo tão vital para todo o ecossistema que não deve ser deixada de lado, deve ser feita com zelo e dedicação. Importante também, é continuar trabalhando para que o nosso exemplo inspire muitos outros jovens a fazerem o mesmo”.

O que são Núcleo Litoral Solidário e Rede Ecovida

O Núcleo Litoral Solidário é um dos 32 núcleos regionais que representam a Rede Ecovida de Agorecologia em aproximadamente 352 municípios do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Nestes municípios e suas comunidades, cerca de 4.500 famílias, organizadas em 491 grupos de agricultura ecológica são assessoradas por 20 organizações não governamentais (ONGs), como o Centro Ecológico.

O Litoral Solidário, conforme o trabalho de conclusão do curso de Agronomia de Joaquim Martins da Rosa, está no trabalho de 41 grupos em 10 municípios do litoral norte do RS. Abrange 2.883,07 hectares de área cultivada sem agrotóxicos, com 180 produtos vegetais cadastrados e 89 produtos processados. “As culturas mais cultivadas são a banana prata, batata-doce, alface, tomate e feijão de vagem. A pesquisa constatou que 89,84 % destes representantes são homens, e apenas 10,16% são mulheres”.

Fonte: Centro Ecológico – Dom Pedro de Alcântara