Embora a estiagem no Litoral Norte não esteja tão acentuada quanto em outros lugares do RS, e os bananais ainda não registrem perdas, a região conta com a tecnologia das agroflorestas para mitigar, ao menos em parte, os extremos do clima sobre seu principal cultivo. São, segundo a Divisão de Flora da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), 62 sistemas agroflorestais (safs) certificados pela Regional do Litoral. Destes, 20 são assessorados pelo Centro Ecológico nos municípios de Mampituba, Dom Pedro de Alcântara, Três Cachoeiras, Torres e Morrinhos do Sul, num total de quase 60 hectares.

“Quando chega esse tempo de estiagem – que é o tempo que nós estamos agora – o bananal agroflorestal não sofre muito, e quando tem bastante chuva também não. Tanto faz se com chuva ou com sol, ele se beneficia da agrofloresta”, garante Altemir Silveira da Costa, da comunidade de Rio da Panela, Mampituba. Além da banana, a agrofloresta de 4 hectares da família produz ervas medicinais, açaí de juçara, amorinha, café e muitas mudas de árvores nativas da mata atlântica: canjerana, formigueira, cedro. “Uma infinidade”, define o agricultor.

Marli Justo e o marido, José Deoclécio, produzem banana em 3 hectares de agrofloresta na comunidade de Lajeadinho, em Três Cachoeiras. Marli observa que o saf protege as bananeiras do calor e conserva a umidade do solo. Para Elias Stregue Evaldt, de Vila Três Passos, Morrinhos do Sul, as palmeiras juçara e as outras árvores do saf sombreiam as bananeiras e assim deixam o ambiente mais fresco.

Nos bananais que não contam com a presença de outras árvores, os agricultores estão atrasando as adubações por causa da falta de chuva, respondeu Emiliana Cordioli da Emater de Três Cachoeiras, sobre os efeitos das altas temperaturas na bananicultura convencional. A agrônoma avalia que agora é impossível mensurar o impacto do clima sobre uma cultura permanente e de ciclo tão longo. “A gente vai conseguir ver talvez daqui a um ano ou mais tempo. Nesse exato momento ela (a bananeira) vai ficar talvez mais vulnerável para a questão de ventos e de doenças”.

Certificação

Três Cachoeiras concentra o maior número de agroflorestas certificadas: nove, seguido por Mampituba, com cinco e Morrinhos do Sul, com três. Em todo Estado do RS, conforme a analista ambiental Natália Rosa Delazeri, da Divisão de Flora da Sema, o órgão governamental já certificou 183 agroflorestas.”Em média, é esse número que temos hoje”, pondera a bióloga.

Conforme a publicação Conservação da biodiversidade e modos de vida sustentáveis nas lagoas do sul do Brasil, a certificação confere segurança jurídica ao produtor, que pode realizar podas e cortes de plantas, e comercializar os produtos como madeira nativa e produtos não madeiráveis. “ A certificação nos dá tranquilidade e responsabilidade com o todo”, afirma a produtora Jurema Justo Mengue, que no Morro do Tatu, em Três Cachoeiras, maneja uma agrofloresta de 3,7 hectares.

Crise climática
“Desde janeiro não tenho conseguido produzir hortaliças com a intensidade dos ventos e do sol. Precisei optar em não utilizar dos recursos hídricos para irrigação com temor de faltar para o consumo humano”, lamenta Rafael Frizzo, da Agrofloresta Lagoa Itapeva. O agricultor diz que, apesar da resiliência superior dos safs em relação a outros sistemas agrícolas, agroflorestas também sofrem com a estiagem, principalmente as bordas. “Enquanto não tratarmos de efeitos ecossistêmicos e achar que as agroflorestas são “ilhas”, como oásis de conservação, estamos nos apartando de considerar a crise sistêmica que atravessamos”.

Fonte: Centro Ecológico