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Há trajetórias que não se medem pelo tempo cronológico, mas pela densidade simbólica que acumulam. A história de Laura Cavalari Bier, Musa da Harmonia da Escola de Samba Gigantes da Orla de Arroio do Sal, é uma delas. Em entrevista concedida à Rádio Maristela, nesta terça-feira (17), feriado de Carnaval, Laura traduziu em palavras o que a avenida consagrou em gestos, 25 anos de dedicação a um Carnaval que é tradição, pertencimento e legado no município do Litoral Norte gaúcho.
A relação começou cedo, ainda na infância, quando o desfile acontecia em outro traçado urbano e os blocos passavam mais perto do chão da memória do que da grandiosidade atual. Filha do veraneio, criada entre a expectativa da avenida e o encanto dos bastidores, Laura cresceu observando fantasias, maquiagens e ensaios como quem aprende uma linguagem antes mesmo de alfabetizar-se. O convite para integrar alas coreografadas, a passagem pela comissão de frente, os estandartes conquistados e os títulos de Rainha do Carnaval foram etapas naturais de um percurso marcado por entrega e reconhecimento público.

HISTÓRIA NA AVENIDA
O Carnaval de Arroio do Sal, que se aproxima de cinco décadas de história, estrutura-se na continuidade. Fundada em 1978, uma das escolas de samba do município, a Gigantes da Orla, construiu hegemonia recente, com 13 títulos, mas sem perder o senso estratégico de que a rivalidade saudável fortalece o espetáculo. Em 2026, o campeonato decidido por um décimo, ficando em segundo lugar, confirmou a maturidade do evento, duas escolas competitivas, público engajado e uma cadeia produtiva que envolve poder público, patrocinadores e centenas de integrantes. Neste ano, foram 247 componentes na avenida, mesmo sob a interferência da chuva do último sábado (14), um risco operacional que impacta desempenho, alegorias e fantasias, mas não compromete a essência da festa.
Para Laura o Carnaval só se sustenta quando se renova. Cerca de 70% dos integrantes das escolas são veranistas, pessoas que chegam, se encantam, permanecem e retornam. É gestão de cultura na prática. A avenida vira ativo simbólico do município, impulsiona turismo, movimenta a economia local e consolida identidade regional. Nesse contexto, a figura da musa deixa de ser apenas estética e assume papel de liderança informal, referência e vetor de engajamento.
IDENTIDADE
Mais do que festa! Laura se orgulha ao relatar o desfile ao lado do filho Rael, de sete anos, autista, com uma participação, ainda que breve e simbólica, mas que reconfigura sua relação com o Carnaval. Não foi apenas um ato de inclusão, mas a materialização de um ciclo, o afeto que a avenida devolve a quem a constrói. A família, formada no e pelo Carnaval, sustenta a continuidade dessa trajetória, transformando a festa em espaço de acolhimento intergeracional.
Ao falar sobre o futuro, Laura reconhece os limites do tempo, as exigências pessoais e familiares, mas também a responsabilidade com o público que a acompanha há décadas. Parar nunca é simples quando se percebe que o próprio percurso inspirou crianças que hoje desfilam como destaques, famílias inteiras que passaram a veranear na cidade por causa do Carnaval e novos integrantes que encontraram na avenida um lugar de pertencimento.
O Carnaval, como ela define, é democrático por natureza, não distingue idade, classe social ou origem. Na avenida, todos são iguais. Essa é a vantagem competitiva de uma manifestação cultural que se reinventa a cada ano sem perder a essência. Em Arroio do Sal, essa continuidade tem rosto, nome e história. A de Laura Cavalari Bier é, sobretudo, a história de um legado que já não pertence apenas a ela, mas a uma comunidade inteira que aprende, ano após ano, que tradição só sobrevive quando é compartilhada.





Confira a entrevista:

