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Dom Jaime Pedro Kohl alerta para omissão diante da falta de moradia em artigo quaresmal

por Melissa Maciel
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O bispo diocesano de Diocese de Osório, Dom Jaime Pedro Kohl, assina o artigo “A pior tentação: fingir de não ver”, no qual propõe uma reflexão contundente para o tempo da Quaresma. Partindo do chamado à conversão e da Campanha da Fraternidade, com o tema da moradia e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), o texto alerta para o risco de os cristãos se omitirem diante do déficit habitacional no país, tratando a realidade como se não fosse responsabilidade coletiva.

No artigo, Dom Jaime destaca que a moradia digna é direito fundamental e condição para o desenvolvimento humano, reforçando que, embora o Estado tenha papel central nas políticas públicas, a Igreja e a sociedade civil são corresponsáveis na conscientização e na busca de soluções concretas. O bispo provoca os fiéis a reconhecer Cristo presente nos que sofrem, especialmente nas pessoas em situação de rua, e afirma que “fingir de não ver” é uma tentação que desafia a vivência autêntica da fé.

Leia a íntegra:

A pior tentação: fingir de não ver

A Quaresma, para nós cristãos, é um tempo para preparar nosso espírito para celebrarmos dignamente a Páscoa da Ressurreição. Dizemos ser um tempo de conversão. Tempo para debulhar nossa vida diante do Senhor e limpar a eira para que o grande encontro com o Ressuscitado aconteça.

Terminado o carnaval e depostas as máscaras da ilusão, precisamos voltar à realidade nua e crua do trabalho cotidiano, dos compromissos familiares, profissionais e religiosos. Acolhamos de coração aberto a proposta da Campanha da Fraternidade, que nos traz a reflexão sobre a moradia, com o lema: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14).

É hora de arregaçar as mangas e ver como podemos colaborar na superação do déficit habitacional no nosso país. À primeira vista, pode acontecer de acharmos que isso não é problema nosso. O Evangelho que meditamos nos apresenta as tentações feitas a Jesus no deserto, sobre sua identidade e missão. Não será essa uma primeira tentação do maligno? Convencer-nos de que a questão da moradia não tem nada a ver conosco?

A Quaresma que iniciamos com a imposição das cinzas lembra nossa fragilidade, que precisa ser sustentada pela bondade divina no processo de conversão contínua e comprometimento com a melhoria das condições de vida dos irmãos e irmãs que passam necessidades e não são atendidos em seus direitos básicos. Um dos mais importantes é o de uma moradia digna, que possibilite condições adequadas de desenvolvimento pessoal e familiar.

A Igreja sabe que cabe ao Estado, com suas políticas públicas, promover condições dignas de habitabilidade. Também tem consciência de ser uma das forças vivas que pode ajudar na conscientização dessa responsabilidade e fazer a parte que lhe cabe. Conforme o número 79 do texto-base: as ações individuais, comunitárias e da sociedade civil, e as políticas públicas são imprescindíveis e complementares. Sem políticas públicas não se universalizam direitos. O da moradia é um desses.

Portanto, somos, sim, corresponsáveis pela situação da moradia no nosso país e todos podemos contribuir na melhoria das condições de habitabilidade em nossas cidades. Os moradores de rua estão nas portas de nossas Igrejas porque ainda esperam, de nós católicos, solidariedade. Nossa esmola nem sempre é a melhor forma de ajudar para uma solução efetiva.

Para nossos grupos eclesiais, os subsídios para os encontros de grupo já se encontram nas secretarias paroquiais. É uma forma simples e eficaz para a vivência quaresmal e um modo de, juntos, achar caminhos de solução para um problema real que é de todos. “Ele veio morar entre nós” e ainda vem. Conseguimos vê-lo? Estamos dispostos a acolhê-lo? Fingir de não ver é tentação. Quando já não é pecado.

Dom Jaime Pedro Kohl
Bispo Diocesano

Fonte: Ascom da Diocese de Osório / Melissa Maciel