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O bispo da Diocese de Osório, dom Jaime Pedro Kohl, propõe uma reflexão espiritual e social a partir do episódio bíblico do encontro de Jesus com a samaritana no poço de Jacó, tema do terceiro domingo da Quaresma. No artigo intitulado “Quem nos pede de beber, hoje?”, o bispo destaca que a água, além de elemento essencial à vida, simboliza também a dignidade humana e o direito a condições básicas de existência, como moradia adequada e acesso à água potável.
Inspirado no Evangelho de João, dom Jaime ressalta que o gesto de Jesus ao dialogar com a samaritana revela uma atitude de acolhida e inclusão, capaz de transformar vidas. A reflexão aponta que, ainda hoje, Cristo continua a pedir “de beber” por meio das necessidades concretas das pessoas que sofrem, como os que enfrentam pobreza, violência ou abandono. Para o bispo, a Quaresma é um tempo propício para reconhecer esses clamores e responder com solidariedade, assumindo um compromisso cristão com a dignidade e o cuidado com o próximo.
Leia a íntegra do artigo:
Quem nos pede de beber, hoje?
Na semana passada dizíamos que todos têm direito a uma tenda/casa adequada para morar com condições dignas em função de uma educação e desenvolvimento humano e espiritual. Um dos elementos indispensáveis para cada morada é a água potável, água viva, que mantém e gera vida. O terceiro domingo da Quaresma nos brinda com a promessa de Jesus: “A água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna” (Jo 4,14).
A atitude de Jesus, que se aproxima da samaritana sem discriminar, pelo contrário, incluindo e valorizando a pessoa com sua realidade própria, o seu ser mulher, chama nossa atenção. Judeus e samaritanos buscam água na mesma fonte: o poço de Jacó. Não é apenas água física, mas também cultural: a rica história de Israel.
Para a tradição judaica, o poço representa a garantia da água oferecida por Deus ao seu povo. Jesus, ao sentar-se junto ao poço, está revelando que agora o poço da água viva é ele. Quem o acolhe encontra o sentido profundo de sua vida, qual fonte de água cristalina que jorra para a vida eterna.
Como costuma acontecer nas catequeses de João, Jesus acaba revelando à pessoa sua identidade messiânica: “Sou eu, que estou falando contigo”. Sem mais nenhum temor, ela corre anunciar aos seus conterrâneos: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será ele o Messias?”
É bonito perceber a mudança de ânimo e de postura: não é mais Jesus a pedir: “Dá-me de beber”, mas ela mesma que suplica: “Senhor, dá-me sempre dessa água, para que eu não tenha mais sede, nem tenha que vir aqui tirá-la”.
Tudo indica que ela tinha suas crenças e convicções de fé, mas ainda lhe faltava algo. O encontro com Jesus provocou mudanças na sua vida. Percebe que precisa dar um passo na sua experiência de fé: abandonar os maridos da idolatria para adorar a Deus Pai, em espírito e verdade. O encontro com Jesus é sempre revelador e libertador.
É para a liberdade que Cristo nos libertou. São muitos os que gritam por moradia digna e água cristalina. Neles, Cristo pede: “Dá-me de beber!”
Bebamos até a saciedade desta fonte cristalina: Jesus. Ele pode chegar disfarçado em outras vestes: o mendigo deitado no banco da praça; a mulher – esposa e mãe de olhar sombrio – que pede socorro porque ameaçada por quem a devia proteger; e tantas outras situações que clamam por solidariedade.
Dom Jaime Pedro Kohl – Bispo de Osório
Fonte: Ascom Diocese de Osório / Melissa Maciel

