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Quatro anos depois do início de uma nova fase na Delegacia de Polícia Civil de Torres, o atendimento às vítimas de violência doméstica avançou, mas ainda convive com limites estruturais e desafios sociais profundos. O tema foi discutido em entrevista na Rádio Maristela, na quinta-feira, 02, com o delegado Marcos Vinicius Muniz Veloso, de forma online, e, no estúdio, com a presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, Patrícia Schardosim Simão, e a representante do Centro de Referência da Mulher, Rita de Cassia Jaeger.
Segundo o delegado, melhorias foram implementadas no acolhimento das vítimas, incluindo protocolos específicos de atendimento e a criação da Sala das Margaridas, espaço destinado a registros com maior privacidade e cuidado. Ainda assim, ele reconhece que a estrutura física da delegacia, construída em 1971, impõe limitações diárias. “Temos avanços importantes, mas o prédio já é obsoleto. Precisamos de uma nova delegacia para qualificar ainda mais o atendimento”, afirmou.
REDE DE APOIO
O trabalho, destacou Marcos Vinicius, depende da atuação conjunta da rede de proteção. Polícia Civil, Patrulha Maria da Penha da Brigada Militar, Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (COMDIM) e Centro de Referência da Mulher Priscila Selau (CRM) atuam de forma integrada para garantir acolhimento e acompanhamento contínuo. “A Polícia Civil não faz nada sozinha. A integração entre os órgãos é fundamental para que o atendimento funcione”, disse.
TIPOS DE VIOLÊNCIA
Para Patrícia, compreender a violência doméstica exige olhar para raízes culturais profundas. Ela explica que os casos raramente começam com agressões físicas. “A violência é crescente. Inicia na dimensão psicológica, no controle, no isolamento da mulher. Muitas vezes ela só percebe quando a situação já está grave”, relatou. Entre os sinais de alerta estão o controle financeiro, restrições de convivência social, imposições sobre vestimenta e decisões pessoais.
Na ponta do atendimento, Rita de Cassia observa que o acolhimento especializado tem sido decisivo para romper ciclos de violência. O CRM oferece acompanhamento psicológico, social e orientação jurídica, inclusive para quem ainda não registrou ocorrência policial. “A mulher encontra um espaço seguro para falar e entender o que está vivendo. Nem sempre ela procura ajuda imediatamente, por isso também fazemos busca ativa”, explicou.
A dependência econômica ainda aparece como um dos principais fatores que levam vítimas a recuar após denúncias. Diante disso, o Centro de Referência inicia a construção de projetos voltados à qualificação profissional e inserção no mercado de trabalho. A proposta é ampliar autonomia financeira e oferecer condições reais para que mulheres reconstruam suas trajetórias.
Durante a entrevista, os participantes reforçaram que a prevenção passa pela informação e pela rede de apoio acessível. “O mais importante é que a mulher saiba que não precisa esperar a violência chegar ao extremo para buscar ajuda”, afirmou Patrícia.
O delegado encerrou destacando que o aprimoramento do atendimento segue como prioridade institucional. “Precisamos sempre evoluir. Sensibilidade no atendimento e trabalho em conjunto são essenciais para proteger quem procura a delegacia em um momento de extrema fragilidade”, disse.
Em Torres, a rede segue em construção permanente, entre avanços estruturais, desafios culturais e o esforço coletivo para que nenhuma mulher enfrente a violência sozinha.





Confira a íntegra da entrevista:

