Vivência às margens do rio Uruguai reúne músicos convidados em um ambiente de criação coletiva, convivência intensa e preservação da tradição nativista gaúcha.
Às margens do rio Uruguai, onde a paisagem se impõe com silêncio e profundidade, a música ganha outro ritmo. Não há pressa, nem plateia convencional. Há convivência. O Festival da Barranca, realizado em São Borja desde 1972, não se apresenta ao público como espetáculo aberto, mas como rito de pertencimento. Para estar ali, é preciso mais do que interesse, é necessário ser convidado, integrado, reconhecido como guardião de uma tradição que atravessa gerações.

Foi assim que o compositor e cantor Ricardo Pinho chegou ao acampamento montado nas barrancas do rio, na primeira semana de abril deste ano, período em que, tradicionalmente, o festival acontece durante a Semana Santa. Natural de Pelotas, radicado em Torres desde 1999, onde construiu sua trajetória também como educador, ele carrega uma relação profunda com a música, expressa inclusive na composição criada para marcar os 200 anos da Igreja São Domingos. “Recebi o convite pela primeira vez e fui considerado membro das próximas barrancas, com o compromisso de participar”, relata. A experiência não se resume ao palco. Ela começa no convívio, nas refeições coletivas, nas rodas de violão, nas conversas que atravessam madrugadas. Um espaço onde música, poesia e identidade se entrelaçam de forma orgânica.
O festival nasceu do grupo “Os Angueras”, que até hoje sustenta a essência do encontro. Ao longo de mais de cinco décadas, consolidou-se como patrimônio cultural imaterial do Rio Grande do Sul, preservando uma característica única, a criação em tempo real.
O PESO DA PALAVRA
O evento teve início na quarta-feira, 1º de abril, e, na sexta-feira, 3, o entrosamento dá lugar ao desafio. É nesse momento que a comissão anuncia o tema do ano. Em 2026, a palavra escolhida foi “resistência”. A partir daí, inicia-se uma corrida contra o tempo: poetas, músicos e intérpretes têm cerca de 24 horas para compor, musicar e inscrever suas obras.
Até as 16h do sábado, as composições são entregues. À noite, apenas 15 seguem para o palco da Barranca, selecionadas por uma comissão de triagem. Não há gravações, não há publicação em redes sociais. As músicas permanecem inéditas, preservadas para outros festivais e, sobretudo, para a memória de quem esteve ali. Entre uma etapa e outra, o festival se desenha em múltiplas camadas com tertúlias, declamações, gaitaços e reflexões culturais ocupam os dias.
“Estive rodeado por ídolos, ouvindo excelentes instrumentistas e músicas maravilhosas”, descreve o Ricardo, que compartilhou momentos com nomes consagrados da cultura gaúcha como Ewerton Ferreira, Elton Saldanha, Érlon Péricles e Pirisca Grecco.
A experiência ultrapassa o fazer artístico. Ela se estabelece como vivência coletiva, onde o aprendizado acontece na troca, na escuta e na convivência.




PALCO DA BARRANCA
A trajetória que levou o representante de Torres até o festival começou décadas antes, ainda nos anos 1980, entre discos antigos e festivais nativistas. A música “Veterano”, de Antônio Ferreira e Ewerton Ferreira, foi um marco inicial. Vieram apresentações, composições e, depois, um afastamento natural, imposto pela profissão.
O retorno à música ocorreu nos anos 1990 e, posteriormente, em 1999, passou a conciliar essa retomada com a vida acadêmica e a atuação profissional. No litoral norte gaúcho, novos encontros fortaleceram esse caminho. “Descobri talentos musicais incríveis que me amadrinharam em apresentações”, relembra, citando nomes como Edu Torres, Leandro Mustafá, Jeisson Cunha e Chiquinho Reis.
O convite para a Barranca, inesperado, carregava o peso simbólico de uma trajetória. Em meio a 38 composições inscritas, sua obra, “Seara da Resistência”, criada em parceria com Pedro Guerra, dentro do tema “resistência”, foi selecionada para o palco. “Cantei no palco ‘sagrado’ da Barranca pela primeira vez”, afirma.
Mais do que a classificação, o momento foi de consagração pessoal. Ao final, junto aos demais participantes, entoou o hino “Generoso”, encerrando o festival em um gesto coletivo que sintetiza o espírito do encontro.
Na despedida, veio o reconhecimento definitivo. “Fui tratado como irmão. Disseram que agora sou um barranqueiro, com compromisso para as próximas edições, sem necessidade de convite.” Uma distinção que não se mede em troféus, mas em pertencimento.


FOTOS: ARQUIVO PESSOAL

