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O inverno recém começou, mas um dos espetáculos mais aguardados da natureza já começou. Desde 15 de junho, a equipe do Projeto Farol das Baleias voltou a percorrer a costa do Litoral Norte gaúcho e do Sul catarinense para monitorar a chegada da baleia-franca-austral (Eubalaena australis), espécie que todos os anos transforma o sul do Brasil em um dos principais berçários naturais do Atlântico Sul.

Migratórias, as baleias-francas percorrem milhares de quilômetros entre as águas frias próximas à convergência Antártica, onde se alimentam, e as águas mais calmas e protegidas do litoral sul brasileiro, utilizadas para reprodução, parto e os primeiros meses de vida dos filhotes. Embora a chegada da espécie costume ocorrer em junho, neste ano já houve registros isolados em maio, indicando o início antecipado da migração.
MONITORAMENTO

A temporada de monitoramento se estende até outubro. Nesse período, pesquisadores realizam voos com drones em pontos estratégicos do litoral para registrar imagens que permitem avaliar o estado de saúde dos animais, acompanhar o sucesso reprodutivo, identificar indivíduos e compreender como utilizam os ambientes costeiros. As informações reunidas ao longo dos anos têm papel fundamental na conservação de uma espécie que já esteve ameaçada pela caça comercial.
Até o momento, a equipe que atua em Torres contabilizou 13 baleias na temporada de 2026: dez indivíduos adultos e três filhotes nascidos em 2025, que retornaram neste inverno acompanhados de suas mães. Em Santa Catarina, o primeiro filhote da temporada foi registrado em 17 de junho, na praia de Itapirubá, em Imbituba. Já no litoral gaúcho, a primeira mãe com filhote foi avistada em 25 de junho, na praia de Itapeva, em Torres. A fêmea, conhecida pelos pesquisadores como “Figa”, já havia sido registrada pelo projeto em 2021 e 2024, evidenciando a fidelidade que muitas baleias-francas demonstram às áreas reprodutivas ao longo da vida.
Além do comportamento maternal, outro aspecto desperta o interesse dos pesquisadores: as calosidades distribuídas sobre a cabeça da baleia-franca. Essas formações naturais da pele são colonizadas por pequenos crustáceos conhecidos como piolhos-de-baleia, criando desenhos exclusivos para cada indivíduo, semelhantes a uma impressão digital. Graças a esse método de identificação, o catálogo do Projeto Farol das Baleias reúne atualmente mais de 500 baleias adultas catalogadas.
PROJETO FAROL DAS BALEIAS
Fundado em 2002, o Projeto Farol das Baleias integra o Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos do Rio Grande do Sul (GEMARS) e utiliza tecnologia de monitoramento aéreo para ampliar o conhecimento científico sobre a espécie e subsidiar ações de conservação.
O trabalho também depende da participação da população. Moradores e visitantes do litoral norte gaúcho podem contribuir com a pesquisa informando avistagens de baleias por meio do perfil do projeto no Instagram @faroldasbaleias, fortalecendo uma rede de ciência cidadã que ajuda a acompanhar uma das maiores migrações naturais do planeta.
A expectativa dos pesquisadores é de que, nas próximas semanas, o número de avistagens aumente significativamente, à medida que mais fêmeas chegam ao litoral acompanhadas de seus filhotes.
A equipe do projeto é composta por:
Daniel Danilewicz – biólogo, doutor em Ecologia e Evolução, coordenador do projeto e coordenador geral;
Luciana Dores-Santos – mestre em Zoologia e coordenadora de campo;
Ticiana Fettermann – bióloga e coordenadora do projeto;
Andriéli Boeira – mestranda em Qualidade Ambiental e pesquisadora;
Henriette Loose – mestranda em Zoologia e pesquisadora;
Luiza Panini – mestre em Zoologia e pesquisadora;
Lisaline De Bruecker – mestra em Comunicação e voluntária;
Para quem vive ou visita as praias do Rio Grande do Sul, a temporada representa uma oportunidade rara de observar, à distância e com respeito, um dos mais emblemáticos mamíferos marinhos do hemisfério sul.

