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Historiador Nelson Adams Filho detalha participação de diferentes grupos, conflitos armados e os registros da Independência nas Torres.
A Independência do Brasil não se resumiu ao episódio ocorrido em 7 de setembro de 1822, às margens do Riacho Ipiranga, em São Paulo, quando Dom Pedro retornava de Santos. O processo de separação de Portugal começou antes de 1822 e só foi formalmente concluído em 1825, com o Tratado da Amizade, firmado entre Brasil e Portugal sob a influência da Inglaterra.

Para compreender esse processo histórico e os reflexos da Independência na região das Torres, a reportagem da Rádio Maristela contatou o historiador e jornalista Nelson Adams Filho, autor do livro A Independência do Brasil pelas Províncias de Santa Catarina e São Pedro do Rio Grande do Sul, que realizou pesquisas junto ao Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul.
Segundo o historiador, a Independência deve ser compreendida como um processo histórico. Ele explica que, em abril de 1821, antes de retornar a Portugal, Dom João VI já previa a possibilidade de separação do Brasil e teria orientado o filho, Dom Pedro: “Pedro, se o Brasil se fizer independente, que seja por ti, que hás de me respeitar. E não por um estranho que não me fará respeito.”
O momento está registrado, segundo Adams Filho, em uma das 33 cartas que Dom Pedro escreveu ao pai entre 1821 e 1826, ano da morte de Dom João.
Mulheres, indígenas e afrodescendentes
O historiador chama atenção também para personagens que, segundo ele, foram tradicionalmente deixados em segundo plano nos relatos sobre a Independência. Mulheres, indígenas, escravizados e afrodescendentes tiveram participação no processo e passaram a ser considerados pela chamada Nova História.
Entre essas personagens está a Imperatriz Leopoldina. Conforme Adams Filho, ela teve participação ativa e “induziu Dom Pedro ao ato do dia 7 de setembro”.
O historiador também contesta a ideia de que a Independência tenha ocorrido sem conflitos internos e mortes. Segundo ele, houve confrontos armados, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, com mais de três mil mortes calculadas.
Entre os episódios está a Batalha do Jenipapo, no Piauí, marcada pelo confronto entre vaqueiros e brasileiros mal armados e tropas portuguesas de elite. Também houve a Guerra na Bahia, em Salvador, que terminou em 1823 com mortes e a expulsão das tropas portuguesas contrárias à Independência.
Adams Filho cita ainda conflitos armados e mortes no Maranhão, no Grão-Pará e na Província Cisplatina. Para o historiador, milhares de brasileiros perderam a vida no processo de consolidação da Independência.
Dom Pedro era contrário à separação
Outro aspecto destacado pelo historiador é a posição inicialmente contrária de Dom Pedro à Independência. Entre maio e agosto de 1822, segundo Adams Filho, as cartas enviadas pelo príncipe ao pai demonstram fidelidade às Cortes portuguesas e a Dom João VI.
O chamado Dia do Fico, em 9 de janeiro de 1822, já demonstrava, porém, a complexidade daquele momento. Dom Pedro decidiu permanecer no Brasil e não retornar a Portugal, numa tentativa de impedir o avanço do movimento de Independência.
José Bonifácio, principal ministro e defensor de Dom Pedro, também era contrário à separação naquele primeiro momento. Conforme o historiador, os dois passaram a apoiar a Independência em meados de agosto, quando compreenderam que seria impossível resistir ao movimento.
A opção defendida por Dom Pedro e seus apoiadores era por uma Independência Constitucional sob regime monárquico. Isso contrariava outras lideranças que defendiam a separação de Portugal acompanhada da implantação de uma República.
Nesse contexto, o historiador relaciona o movimento republicano aos ideais de liberdade fortalecidos pela Revolução Francesa de 1789, ao fim do Absolutismo e à ascensão do Iluminismo, marcado pela valorização da Razão e do Homem. Diante da possibilidade de uma Independência republicana, Dom Pedro e seus seguidores optaram pela manutenção da monarquia.
12 de outubro foi o ato formal da Independência
De acordo com Nelson, o ato formal e jurídico da Independência ocorreu em 12 de outubro de 1822, data do aniversário de Dom Pedro.
Nas principais vilas brasileiras onde a notícia chegou, a Independência foi formalizada. No Rio Grande do Sul, os registros mencionados pelo historiador apontam para Rio Grande, devido à existência do porto marítimo, e Porto Alegre.
A formalização ocorria em praça pública, geralmente em frente às igrejas, por meio da assinatura do Termo de Vereança e Aclamação, com a participação de autoridades militares, políticas, religiosas e da população.
Em Porto Alegre, o ato ocorreu em frente à Catedral Nossa Senhora da Madre de Deus. Na ocasião, eram realizados vivas ao Imperador, à Imperatriz, à Igreja Católica e à Independência Constitucional Monárquica. O povo aplaudia e comemorava, enquanto eram ouvidos tiros de canhão. Ainda conforme o relato histórico apresentado por Adams Filho, os sinos das igrejas de Porto Alegre começaram a repicar ao amanhecer daquele 12 de outubro.
E nas Torres?
Quando o foco da história chega às Torres, os registros são mais escassos. Segundo Nelson, não foi encontrado até o momento nenhum documento que registre a comemoração da Independência do Brasil nas Torres em 1822.
A realização de uma celebração em 7 de setembro daquele ano também seria inviável, considerando as condições de comunicação existentes na época. No Rio Grande do Sul, apenas Rio Grande e Porto Alegre teriam recebido inicialmente a informação sobre o ato de Dom Pedro no Ipiranga.
As notícias chegavam por navio, único meio de comunicação disponível, já que ainda não existia telégrafo. Uma viagem entre Rio de Janeiro e Rio Grande levava de quatro a cinco dias, e eram necessários mais um ou dois dias para que a informação chegasse a Porto Alegre.
O primeiro registro relacionado à Independência nas Torres aparece somente em fevereiro de 1824, conforme documentação do tenente-coronel Francisco de Paula Soares de Gusmão, comandante da Guarda e Registro, estrutura que funcionava como um pedágio nas Torres.
Naquele período, em comemoração à passagem do presidente da Província, José Fernandes Pinheiro, pelas Torres, Paula Soares deu ao forte existente na região o nome de Baluarte Ipiranga, em homenagem ao ato de Dom Pedro às margens do Ipiranga e à própria estrutura militar em formato de baluarte.
Bandeira do Império foi hasteada nas Torres em 1824

Outro registro apresentado pelo historiador indica que a primeira bandeira do Império, desenhada pelo francês Jean-Baptiste Debret, foi hasteada no Baluarte Ipiranga em 12 de outubro de 1824, novamente na data do aniversário de Dom Pedro. O registro foi feito por Paula Soares.
José Fernandes Pinheiro e o tenente-coronel Francisco de Paula Soares de Gusmão também tiveram participação na vinda dos 421 imigrantes alemães para as Torres, em 17 de novembro de 1826, episódio que completará 200 anos.
Adams Filho destaca ainda uma particularidade. Em 7 de setembro de 1822, Paula Soares estava em Porto Alegre e, portanto, “deve ter tido conhecimento do ato de Dom Pedro poucos dias depois”. Mesmo assim, para as Torres, o primeiro registro localizado até o momento relacionado à Independência é de 1824.
O historiador não descarta, porém, a possibilidade de novos documentos serem encontrados. Segundo ele, ainda podem existir registros de Paula Soares que não foram localizados e que eventualmente possam comprovar alguma comemoração da Independência nas Torres em 1822 ou 1823.
A pesquisa utilizada pelo historiador tem como uma das principais referências seu livro A Independência do Brasil pelas Províncias de Santa Catarina e São Pedro do Rio Grande do Sul, além de pesquisas realizadas junto ao Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul.

