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3º Farol da Poesia Itinerante valoriza talentos e mantém viva a arte da declamação em Torres

por Melissa Maciel
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A poesia crioula ganhou espaço na programação da II Ronda Farroupilha do Departamento de Tradições Gaúchas (DTG) Invernada São Domingos, da Paróquia São Domingos, em Torres. Na quinta-feira, 17, a terceira edição do Farol da Poesia Itinerante reuniu declamadores, músicos, tradicionalistas e famílias em um encontro marcado pela valorização da expressão artística e pela espontaneidade. O evento foi apresentado pelo comunicador e tradicionalista Odilon Ramos e transmitido pelas redes sociais, ampliando o alcance da iniciativa.

O Farol da Poesia nasceu a partir de uma proposta de mobilizar pessoas em torno da poesia e da declamação. Segundo Odilon Ramos, a iniciativa surgiu dentro do DTG Invernada São Domingos, a partir de uma ideia compartilhada com Oscar Steffen e da intenção de criar um espaço para a poesia, inclusive com a perspectiva de futuramente desenvolver uma oficina. “Vamos começar a mobilizar esse povo em torno da poesia? Vamos começar a motivá-los?”, relata Odilon ao explicar como a proposta tomou forma.

A escolha do nome também carrega uma referência à identidade de Torres. A ideia apresentada por Oscar Steffen foi criar uma denominação que identificasse o município e, ao mesmo tempo, expressasse a proposta cultural do projeto. Assim nasceu o Farol da Poesia, associando um dos principais símbolos de Torres à poesia e ao tradicionalismo.

MEMÓRIA E CONTINUIDADE

A inspiração para o projeto também está relacionada a uma experiência anterior de Oscar, ainda em Cachoeirinha. Naquela época, os encontros eram realizados em casas e CTGs, reunindo pequenos grupos de pessoas interessadas em ouvir e declamar poesia.

Com a retomada da ideia, o projeto segue a característica itinerante e aberto a convites. A primeira edição do Farol da Poesia ocorreu em Torres, no ano passado, na comunidade São Sebastião. A segunda foi realizada em Araranguá, em Santa Catarina, a convite do CTG Crioulos do Caverá, e a terceira retornou a Torres durante a II Ronda Farroupilha.

Oscar explica que não existe calendário fixo para as próximas edições. O encontro pode ser realizado ao longo do ano, em qualquer cidade ou entidade que tenha interesse em receber a proposta. A ideia é que o Farol da Poesia possa chegar a diferentes galpões, CTGs e espaços culturais, criando novas oportunidades para quem escreve, declama, canta ou simplesmente aprecia a poesia.

SEM COMPETIÇÃO

Um dos diferenciais do Farol da Poesia é justamente não transformar a declamação em disputa. Odilon e Oscar defendem a espontaneidade e a liberdade de expressão, em contraponto aos concursos nos quais os participantes são avaliados por pontuação.

Para Odilon, o encontro funciona como uma “vitrine” para que cada participante apresente sua capacidade artística sem a necessidade de superar outro declamador. “Aqui nós nos nivelamos todos, numa mesma prateleira e nos estimulamos uns aos outros, nos aplaudimos e apreciamos uns aos outros”, afirma.

A proposta, segundo Odilon, também permite revelar talentos que talvez não encontrem espaço em ambientes competitivos. O objetivo é cultivar a poesia, incentivar novos declamadores e aproximar diferentes gerações da literatura e da oralidade presentes na cultura gaúcha.

NOVAS GERAÇÕES

Entre os participantes está Lira Rosa dos Santos, de 15 anos, que começou a declamar aos 12, motivada pela participação nas cirandas tradicionalistas. Integrante do CTG Porteira Gaúcha da Vila São João e do DTG Invernada São Domingos, de Torres, ela conta que escolheu a declamação como forma de expressão e vem aperfeiçoando sua interpretação e pesquisa.

A jovem também revela que a escolha dos poemas acompanha diferentes momentos de sua trajetória. Um poema pode representar aquilo que ela sente em determinado período e, posteriormente, outro texto passa a dialogar melhor com sua experiência. Para memorizar e interpretar uma obra, o processo pode levar meses, envolvendo estudo, compreensão do texto e construção da interpretação.

A presença de jovens como Lira demonstra uma das dimensões do projeto, a de aproximar as novas gerações da poesia e criar ambientes nos quais crianças e adolescentes possam conhecer diferentes manifestações do tradicionalismo.

TRADIÇÃO ALÉM DA FESTA

Para Bianca Bergmam, participante desde a primeira edição e integrante do grupo ligado ao CTG Crioulos do Caverá, em Araranguá, a iniciativa amplia a compreensão sobre a própria cultura gaúcha. Ela observa que a Semana Farroupilha muitas vezes acaba associada principalmente ao churrasco, à música e às atividades campeiras, enquanto outras expressões artísticas podem receber menos atenção.

Bianca destaca a importância de trabalhar também a poesia, a declamação e a música como elementos formadores da cultura tradicionalista. Segundo ela, levar essas experiências às crianças é uma maneira de despertar o interesse e possibilitar que elas tenham contato com manifestações que talvez não façam parte do cotidiano familiar.

“É uma maneira de se perpetuar”, afirma Bianca ao falar sobre o contato das novas gerações com a cultura gaúcha. Para ela, iniciativas como o Farol da Poesia contribuem para que o tradicionalismo seja apresentado em sua diversidade, incluindo suas dimensões artística, cultural, histórica e afetiva.

UM ENCONTRO DE AFETOS

O tradicionalista Ricardo Pinho, que participou como convidado do 53º Festival da Barranca, em São Borja, também participou da terceira edição do Farol da Poesia. Para ele, o encontro evidencia uma característica importante da tradição, o do vínculo familiar e o sentimento de pertencimento ao lugar e à cultura.

Ricardo destaca o valor de reunir pessoas que compartilham o amor pelo chão onde vivem, pela tradição recebida de gerações anteriores e pelas manifestações culturais construídas coletivamente. Na avaliação dele, encontros como o Farol da Poesia permitem perceber como esses elementos continuam sendo transmitidos e ressignificados pelas novas gerações.

O Farol da Poesia se apresenta como uma iniciativa permanente de circulação cultural. Sem data fixa e sem caráter competitivo, o projeto pode ser levado a diferentes municípios ao longo do ano, mediante convite, criando uma rede de encontros em torno da poesia crioula e da declamação.

RICARDO CASCA PEREIRA É HOMENAGEADO

Um momento muito emocionante da noite foi a homenagem do DTG Invernada São Domingos a Ricardo Casca Pereira, lembrado pela amizade, alegria e dedicação às atividades da entidade. A homenagem foi marcada pela recitação da poesia “Casca – Semana Farroupilha 2026”, de autoria do comunicador e tradicionalista Odilon Ramos, escrita especialmente para recordar a trajetória e a presença de Ricardo.

Na poesia, Odilon resgata desde o apelido “Casca”, originado na época em que Ricardo vendia casquinhas para ajudar o pai na lida, até sua participação nas atividades da comunidade, nas rodas de mate e viola, nos bingos da escola, nas promoções e no apoio às ações tradicionalistas. Os versos também lembram a alegria que Ricardo levava aos encontros e a falta que sua presença representa durante a Semana Farroupilha.

Ao final da recitação, familiares de Ricardo receberam uma placa em homenagem à sua memória. O gesto simbolizou o reconhecimento do DTG a alguém que, conforme retratado na poesia, deixou como legado a amizade, a alegria, a fé e o compromisso com a tradição.

CASCA
(Semana Faroupilha 2026)

A bota, a bombacha, a boina,
A cuia do chimarrão…
Quem é aquela gauchão,
De estampa altiva e faceira?
É o das manhãs domingueiras,
Do programa macanudo,
Chimarreando com Casca e Tudo,
Ricardo Casca Pereira.

A quem tem curiosidade,
Do apelido que ele tinha:
É que vendia casquinha,
Ajudando o pai na lida.
História simples de vida,
De quem honra a procedência;
Honestidade, decência,
Rica herança recebida.

Foi marca deste gaúcho ,
Que nos veio de Viamão:
Cada amigo era um irmão,
E o que ficou na lembrança:
Chegava ao curso de dança,
Direto da terapia,
E só trazia alegria,
Coragem, fé e esperança.

Foi presença bem presente,
Em rodas de mate e viola.
Cantava os bingos da escola,
Liderava promoções
E em todas as situações,
Sempre semeando alegria,
Preencheu seu dia a dia,
Alegrando corações.

Na semana Farroupilha,
Quando o gaúcho se exalta,
Ele está fazendo falta,
Para ajudar a animar;
Para nos amadrinhar,
Com o som do seu violão,
E espalhar a tradição,
Que ele tão bem soube honrar.

A Invernada São Domingos,
Onde semeou amizade,
Hoje lembra com saudade
Este ser tão diferente,
E pede ao Onipotente,
Patrão que nunca se enrasca,
Que guarde bem perto, o Casca,
Pra olhar de lá, pela gente…

(Odilon Ramos – 17.09.2026)

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