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Controle, isolamento e violência econômica estão entre os sinais de alerta para mulheres

por Anderson Weiler
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Profissionais que atuam no atendimento às vítimas destacam a importância de identificar as diferentes formas de violência antes que elas evoluam para agressões físicas e defendem o fortalecimento da rede de proteção no Litoral Norte.

O controle sobre a rotina, o isolamento de familiares e amigos e a apropriação do dinheiro da mulher estão entre os sinais de alerta para situações de violência doméstica. A identificação desses comportamentos é fundamental para que as vítimas reconheçam a situação e busquem ajuda antes que as agressões evoluam para episódios de violência física. O tema foi debatido em entrevista com profissionais que atuam no atendimento às mulheres em Torres e Mampituba, no Litoral Norte, que destacaram os desafios para romper o ciclo da violência e garantir o acesso à rede de proteção.

Durante a conversa, as participantes explicaram que a violência física geralmente é precedida por outras formas de agressão, que nem sempre são reconhecidas pelas vítimas. Entre os comportamentos que exigem atenção estão o controle dos horários, dos locais frequentados e das amizades, além de tentativas de afastamento da família. A violência psicológica, moral e patrimonial também pode ocorrer antes de uma agressão física. No âmbito econômico, por exemplo, o agressor pode impedir a mulher de trabalhar, controlar seus rendimentos ou exigir que ela entregue o próprio dinheiro.

Em comunidades menores e no interior, a dificuldade de reconhecer essas situações e procurar ajuda pode ser ampliada pelo isolamento e pela dependência financeira. Uma das profissionais relatou que algumas mulheres passam décadas em relacionamentos marcados por diferentes formas de violência sem compreender plenamente o que estão vivenciando. Em outros casos, a percepção ocorre quando a mulher se aposenta e passa a enfrentar tentativas do companheiro de controlar ou tomar os recursos que ela conquistou ao longo da vida.

Outro desafio é o rompimento do ciclo da violência. Conforme as profissionais, algumas vítimas registram ocorrência e conseguem medidas protetivas, mas acabam retomando o relacionamento após promessas de mudança do agressor. Esse movimento pode estar associado às fases de reconciliação, nas quais o comportamento violento é sucedido por demonstrações de afeto e pedidos de perdão. Por isso, o acompanhamento contínuo e o suporte para que a mulher consiga reorganizar a própria vida são considerados importantes no processo de afastamento da situação de risco.

Atendimento e rede de proteção

Em Mampituba, o primeiro acolhimento às mulheres é realizado pelo Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), com atendimento técnico e encaminhamentos conforme as necessidades de cada caso. Como o município não dispõe de um Centro de Referência da Mulher próprio, mantém parceria com o serviço de Torres. O Centro de Referência da Mulher Priscila Celal recebe mulheres encaminhadas e oferece atendimento especializado. O município de origem também pode realizar a busca ativa para apresentar os serviços disponíveis e facilitar o acesso ao suporte.

O transporte até Torres é disponibilizado para mulheres de Mampituba que precisam do atendimento. Quando há necessidade de busca ativa, a equipe avalia previamente as condições de segurança, especialmente nos casos em que o possível agressor permanece no mesmo ambiente. Conforme a situação, o contato pode ocorrer por telefone, por convite para atendimento no CRAS ou por visita domiciliar, desde que não represente risco adicional à vítima.

A atuação integrada entre os serviços também está em organização no município. Segundo as informações apresentadas na entrevista, Mampituba prepara ações conjuntas envolvendo assistência social, saúde e educação para orientar as mulheres sobre os caminhos disponíveis para buscar ajuda. Uma das atividades previstas para novembro deverá contar com a participação do Centro de Referência da Mulher de Torres.

Em Torres, a Rede Lilás reúne instituições envolvidas no atendimento e na proteção das vítimas, incluindo órgãos de segurança pública, Justiça, Ministério Público e serviços municipais. A articulação busca organizar os fluxos de atendimento, definir as responsabilidades de cada setor e garantir que as mulheres recebam acompanhamento de acordo com as necessidades identificadas.

As participantes também ressaltaram que a violência contra a mulher não ocorre exclusivamente em relacionamentos conjugais. Situações envolvendo filhos contra mães, irmãos e outros integrantes da família também exigem atenção. A Lei Maria da Penha pode ser aplicada em contextos de violência doméstica e familiar que atendam aos requisitos legais, inclusive fora de relações entre companheiros, e pode fundamentar medidas protetivas quando cabíveis.

Informação e prevenção

A prevenção passa pela identificação dos sinais de violência e pela orientação da comunidade. Em Mampituba, atividades realizadas durante o Agosto Lilás incluíram conversas com grupos de idosos atendidos pelos serviços de convivência e pelo CRAS. Os encontros abordaram o ciclo da violência e suas diferentes manifestações, com espaço para perguntas e relatos dos participantes.

As profissionais destacaram ainda a necessidade de enfrentar padrões culturais machistas que tratam a mulher como propriedade do companheiro ou de familiares. Nesse contexto, a educação tem papel importante na prevenção, ao contribuir para relações baseadas no respeito e na autonomia.

Durante a entrevista, também foi mencionada a criação, pelo governo do Rio Grande do Sul, de um sistema integrado para reunir informações dos atendimentos realizados pelos diferentes serviços de proteção. A proposta é facilitar o acesso ao histórico dos casos e permitir a continuidade do acompanhamento quando uma mulher procurar atendimento em outro município. Conforme relatado, a implantação estava prevista para ocorrer gradualmente, com a expectativa de ampliar a integração entre os serviços estaduais.

Outro ponto abordado foi o direito ao afastamento remunerado do trabalho em situações de violência doméstica, conforme as regras legais aplicáveis. A orientação é que mulheres que precisem se afastar para garantir a própria segurança procurem informações nos canais oficiais da Previdência Social e nos serviços especializados, a fim de verificar os requisitos e os procedimentos necessários.

As participantes reforçaram que reconhecer a violência psicológica, moral e patrimonial é tão importante quanto identificar a agressão física. A busca por ajuda pode começar nos serviços de assistência social, nos centros de referência, nas unidades de saúde ou nos órgãos de segurança. O atendimento articulado entre essas instituições é apontado como parte fundamental da proteção às vítimas e da prevenção de novas agressões.

Fotos: Juliana Tamaki/Grupo Maristela