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Gigantes do mar voltam ao Litoral Norte gaúcho e marcam início da temporada de avistamento de baleias

por Melissa Maciel
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Projeto Farol das Baleias inicia monitoramento da temporada 2026 e registra os primeiros grupos de baleias-francas na costa de Torres.

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O inverno ainda ensaiava sua chegada quando as primeiras gigantes do oceano começaram a despontar no horizonte do Litoral Norte gaúcho. Avistadas ainda no fim de maio, as baleias-francas anteciparam a temporada que, oficialmente, teve início na segunda-feira, 15 de junho, com o começo das atividades de monitoramento do Projeto Farol das Baleias em Torres e região. E logo nas primeiras horas de campo, os pesquisadores confirmaram que a temporada promete. No primeiro dia de monitoramento, dois grupos de baleias foram observados na costa, marcando os primeiros registros do trabalho deste ano.

Os animais, observados na região da Praia de Itapeva, seguiam em deslocamento para o norte, confirmando o início de mais uma temporada de passagem e permanência da espécie pelo litoral gaúcho. A expectativa é que o monitoramento siga até 15 de setembro, podendo ser estendido caso a movimentação das baleias permaneça intensa.

Coordenador do Projeto Farol das Baleias e pesquisador do Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos do Rio Grande do Sul (Gemars), o biólogo Daniel Danilewicz explica que o trabalho realizado ao longo dos últimos anos tem ajudado a transformar o conhecimento sobre a presença das baleias-francas no Estado.

“Antigamente se acreditava que o Rio Grande do Sul era apenas uma rota de passagem. Hoje sabemos que não é assim. O litoral gaúcho funciona como um importante berçário para a espécie. Cerca de 80% das baleias que permanecem por aqui são mães com seus filhotes”, destaca.

A descoberta é resultado de quase uma década de pesquisas desenvolvidas pelo projeto. Utilizando drones, observações em pontos elevados e monitoramentos ao longo da faixa costeira, os pesquisadores identificam individualmente cada animal e acompanham seus padrões de comportamento, deslocamento e reprodução.

REFÚGIO PARA MÃES E FILHOTES

As baleias-francas chegam à costa sul-brasileira após uma longa migração. Durante meses, alimentam-se em águas frias próximas à Argentina e regiões subantárticas, acumulando reservas de gordura que sustentam uma jornada impressionante.

Ao alcançarem águas mais quentes e protegidas do litoral brasileiro, entram em um período de jejum que pode durar até quatro meses. É nesse ambiente que as fêmeas dão à luz e amamentam seus filhotes.

Segundo a pesquisadora Andrieli Boeira, mestranda em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale, compreender o comportamento reprodutivo desses animais é um dos focos atuais das pesquisas.

“Estudamos o intervalo reprodutivo das fêmeas, ou seja, o tempo que elas levam para retornar ao litoral com um novo filhote. O mais comum é que isso aconteça em ciclos de aproximadamente três anos”, explica.

Algumas baleias permanecem por semanas ou até meses na mesma região costeira. Em determinados casos, mães e filhotes ficam por até três meses utilizando as águas do Litoral Norte como área de cuidado e desenvolvimento.

SEM FRONTEIRAS

A temporada também reúne pesquisadores e voluntários de diferentes regiões do Brasil e do exterior. Entre eles está a belga Lisaline de Bruecker, que veio ao país para participar das atividades de campo.

Apaixonada pela conservação ambiental, ela trocou temporariamente a rotina de gestão de um café na Bélgica pela observação de cetáceos na costa brasileira.

“Hoje vi minha primeira baleia-franca. Foi uma experiência incrível. O litoral daqui é maravilhoso, muito bonito e preservado”, relata.

Além de Torres, o projeto mantém atividades em Imbituba, em Santa Catarina, uma das principais áreas de reprodução da espécie no país.

POPULAÇÃO PODE AJUDAR

Os pesquisadores destacam que a participação da comunidade é fundamental para ampliar o alcance das observações. Moradores, pescadores, surfistas e visitantes que avistarem baleias podem comunicar a equipe por meio das redes sociais do Projeto Farol das Baleias (@faroldasbaleias).

As informações ajudam a direcionar os trabalhos de campo e contribuem para a construção de uma base de dados cada vez mais completa sobre a presença das baleias-francas no litoral gaúcho.

Enquanto isso, o mar segue guardando seus encontros silenciosos. Entre o azul do Atlântico e as falésias de Torres, as gigantes retornam mais uma vez, lembrando que a costa gaúcha também é território de vida, maternidade e esperança para uma espécie que, após quase desaparecer da costa brasileira, encontra no sul do país um lugar seguro para continuar sua história.

CONFIRA A ENTREVISTA: